QUINTO IMPÉRIO e SEBASTIANISMO
Desde tempos idos que houve megalómanos e visionários, que procuraram, utopicamente, ser donos deste Terraquio que, ao fim e ao cabo é de todos e não é de ninguém!...
Assim, surgiram os quatro grandes impérios da Antiguidade: o egípcio, o assírio-caldaico, o persa e o romano, que acabaram por se desmembrar e até mesmo destruir devido, principalmente, à acção implacável do tempo – o que julgo só haver sido benéfico para a Humanidade.
Na sucessão dessas grandes e poderosas potências, viria então o Quinto Império – sonho visionário do Padre António Vieira, sob o ceptro de D. João IV, cognominado de “O Restaurador”.
Os sonhos de Vieira, de Pessoa e de outros não passaram de meras utopias.
Não devemos no entanto esquecer que o Pe. António Vieira (o maior expoente de todos, neste tema) sonhava um Império muito diferente de todos os outros, construído sobre uma base cristã, ou seja: “Portugal iria reconstruir no Mundo o reino universal de Cristo”.
Tem havido interpretações diversas sobre o assunto, o que aliás é salutar, porquanto isso contribui para um maior enriquecimento da nossa História, um pouco mal conhecida, pese dizê-lo, pela maior parte dos Portugueses nos tempos que vão correndo…O nosso notável Fernando Pessoa também se sentiu obcecado e apaixonado pelo Quinto Império, ao qual dedicou ainda um longo poema, escrito e concluído entre 1923 e 1935 (ano da sua morte), bem como numerosos fragmentos.
Lembro-me de ter lido, algures, e ouvido dizer que a sua Poesia e os seus escritos deixam transparecer uma espécie de sebastianismo, talvez pelo facto de ter “uma costela de judaico!” e de os Judeus, ainda hoje, inspirarem um não sei quê de messiânico; crerem em qualquer coisa que está para vir: o Messias, o Sebastião, o Quinto Império, etc.
Como atrás referi, sempre houve e haverá megalómanos e visionários (no bom e no mau sentido...).
Por exemplo: D. Sebastião desejava, ardentemente um Império Português, em África.
Napoleão sonhava o Império do Mundo. Hitler, mais ou menos a mesma coisa...e, assim por diante.
Pobres visionários, cujos sonhos não eram, a bem dizer, mais que efémeros "castelos no ar", face à lei da Eternidade!...
Confesso não sentir grande simpatia pelas definições de "Império e Imperialismo", visto significarem para mim, domínio e, tantas vezes, esmagamento dos mais fracos, pelos mais fortes e poderosos, quase sempre a título de uma pseudo ajuda benéfica.
Gostaria de frisar que estas linhas que ora dedico a tão vasto e interessante tema -,sobre o qual se têm debruçado tantas figuras de primeiro plano -, são apenas uma pálida ideia de um simples auto-didacta e não historiador, que só o fez, por muito gostar do seu amado Portugal.
J.F.MARQUES![]()

J.F.MARQUES, O Explicador![]()
SEBASTIANISMO - Um Pouco Acerca do Rei D.Sebastião e do Sebastianismo
Há quem diga que o rei D. Sebastião, o Desejado, nasceu em Évora em 1537 e não em Lisboa em 1554. Tinha 14 anos de idade em 1551 -, data em que tomou as rédeas do Governo, dado que foi considerado de maioridade. Nasceu algumas semanas depois da morte de seu pai.
Foi cognominado de o Desejado, porque o povo ansiava o nascimento do menino-rei, isto é de um salvador da Pátria que, a bem dizer, se encontrava no limiar da agonia.
Apesar dos misteriosos e maus presságios que antecederam o nascimento do nobre menino, quase sempre férteis em vaticínios e futurologias, particularmente quando se trate de figuras de elevado quilate, como era o caso do aludido menino, - o povo continuava no entanto a sentir-se animado da esperança de que ele viria a ser, de facto, o salvador que a nação tanto desjava e necessitava.
Elogiado por uns e enegrecido por outros, que lhe chamavam rapazola, tresloucado, degenerado e fanfarrão, creio que nenhuma das vidas dos nossos restantes reis despertou tanto a atenção dos escritores como a vida deste desventurado monarca.
Pelo menos até ao séc. XIX, os escritores que se ocupavam da vida do Desejado, não ousaram retratá-lo e julgá-lo com a dureza e fealdade que caracterizavam os escritos do chamado Século das Luzes.

Era, sobretudo, muito inteligente e impressionável. Além disso, era também assaz influenciável, em certos momentos, dadas as suas inexperiência e imaturidade, o que aliás era natural, na sua tenra idade. Com o seu temperamento, ao mesmo tempo guerreiro e contemplativo, facilmente recebeu as lições do preceptor e do aio-, homens que não obstante serem considerados como mestres dignos de ministrarem a educação de um rei-, só fizeram dele um pobre visionário que, como se sabe, arrastou o reino para a ruína, em consequência da catastrófica derrota de Alcácer-Kibir.
Se Portugal já estava enfermo antes disso, mais doente ficou a partir daí, uma vez que, logo a seguir, praticamente, perdeu a sua tão cara e preciosa independência.
De balde todos, sem excepção, instavam com ele para que desistisse da sua nefasta empresa. aspirava a todo o custo possuir um Império português em Marrocos. Teimoso, rebelde, impusivo, fanático e de ideias megalómanas, não quis ouvir conselhos de ninguém e dirigiu-se a Alcácer-Kibir, cidade em Marrocos, onde se travou a batalha de 4 de Agosto de 1578, na qual foi destroçado pelos mouros o exército português,- onde despareceu o rei e ficou cativa grande parte da fidalguia portuguesa, - não se constituindo assim o tão sonhado Império.
O nosso exército mal organizado e dirigido, cansado da viagem e afectado pelo calor escaldante do deserto, ja não se sentiria, certamente, motivado para essa peleja infernal.E, foi assim o desfecho desta insensata aventura. O rei desapareceu e da sua sorte nunca mais se soube. O povo não quis acreditar na sua morte, e formou-se em torno do seu nome, não só uma lenda, mas também uma seita, que ficou conhecida pelos Sebastianistas. Fenómeno ou superstição colectiva que as especulações de autores tornaram célebre: o Sebastianismo, - embora as suas origens sejam anteriores à morte e até ao nascimento de D. Sebastião.
A sua misteriosa morte deu lugar às trovas e profecias do sapateiro Bandarra, de Trancoso, além de outros. Mas o mito não foi só popular, porquanto espíritos cultos especularam sobre o assunto. O melhor expoente do Sebastianismo foi o Padre António Vieira.A morte do infeliz monarca, porém, acabou por ser oficialmente reconhecida.
Em 1582, o cadáver suposto ou verdadeiro, veio para Portugal e foi enterrado num túmulo da igreja de Belém, onde se escreveu um pequeno epitáfio em latim, que parece deixar transparecer a dúvida, porque diz, ”Aqui jaz, si vera est fama…”.
António Telmo refere que, segundo a tradição, o escudo de Portugal no Portal Oriental que dá entrada para a Igreja dos Jerónimos está rachado pelo meio desde a morte de D. Sebastião em Alcácer-Kibir.
Decorridos quatro séculos sobre tão nefasto e inesquecível acontecimento, ainda hoje se ouve dizer a um certo número de Portugueses, mais pessimistas, que o atraso do nosso País, em relação a outros mais desenvolvidos, se deve em parte ao facto de ainda não estarmos libertos dos estigmas do Sebastianismo.
Opiniões de que não partilho, por entender desfavoráveis à resolução dos problemas que se nos deparem, no dia a dia.

Como aliás já foi referido, o povo não se convencera que D. Sebastião tivesse morrido em Alcácer Kibir. Muitos espíritos crédulos continuaram a acreditar que o rei se conservava oculto numa ilha ignorada, de onde, em manhã de nevoeiro, voltaria para reclamar os eu trono aos Espanhóis.
Assim se gerou a lenda do Príncipe Encoberto e a dita seita dos Sebastianistas, que durou mais de duzentos anos.
Tudo isto deu azo a que quatro impostores tentassem fazer-se passar pelo rei desaparecido. Foram desmascarados e severamente punidos.
J.F.MARQUES
Entre os habitués da Livraria do PROJECTO Art for All, na Parede, figura um senhor de idade avançada que por lá passa quase diariamente.
As pessoas sabem que este senhor tem muito conhecimento e fazem-lhe todo o tipo de perguntas. E ele, despretensiosamente, vai dando em folhinhas A4, recheadas da sua elegante caligrafia, as explicações pedidas.